CRÍTICA | “FRÁGEIS SUSSURROS” INVESTIGA A SOLIDÃO E A FRAGILIDADE DOS ENCONTROS NA CONTEMPORANEIDADE

Espetáculo da Guilda Cacilda Composições Artísticas transforma corpos, telas e relações em uma reflexão sobre isolamento, presença e a possibilidade de reconstruir vínculos

Por Fernando Leão

Há um pequeno e belo livro de Valter Hugo Mãe, O paraíso são os outros, narrado por uma criança que vai descobrindo que alguma ideia de felicidade só parece possível na relação com alguém. Em muitos momentos, Frágeis Sussurros de um Paraíso Precário – 2º Ato, espetáculo da Guilda Cacilda Composições Artísticas, parece reafirmar essa intuição. Mas o faz olhando para um tempo em que o Outro se encontra cada vez mais esmaecido nas relações desmanteladas por uma razão neoliberal.

Logo no início, os corpos em cena dormem e não dormem. Mesmo quando buscam o repouso, estão atentos à luz, à vibração, ao chamado do celular que reclama atenção permanente. Lembro Jonathan Crary e seu 24/7: capitalismo tardio e os fins do sono. A ação precisa ser constante, quase ininterrupta. Afetos, pensamentos e vontades são convocados pelas plataformas digitais. Quase não resta tempo para o observar, o sentir, o refletir, o criar. O silêncio e a lentidão não têm lugar em um mundo no qual informações, dados, mercadorias e capital precisam circular cada vez mais depressa, aproximando-se fantasmaticamente de um “tempo zero”.

Também os encontros duram pouco. O Outro que acolhe, conforta e permite descanso é logo abandonado. Movimentos coreografados, harmônicos e delicados são abruptamente interrompidos pelo enfado, pela dispersão, pelo tédio.

Curiosamente, algumas das interações mais animadas no espetáculo acontecem com caixas — Amazon, Mercado Livre, Shopee — e diante de telas imaginárias. E há algo especialmente inquietante nesses corpos: falam conosco sem jamais nos olhar. Nas telas dos dispositivos, a câmera e o olhar da outra pessoa não coincidem. Conexão não é relação, como afirma Byung-Chul Han.

Na peça, os discursos sobre identidade, diferença e possibilidade de imaginar relações menos violentas aparecem como sussurros. Pensar outros mundos, outras maneiras de estar junto, um futuro mais plural e mais bonito exige uma delicadeza que quase não encontra voz em meio aos berros do individualismo e da violência.

Ninguém parece reconhecer-se verdadeiramente no Outro. Outros indivíduos só importam quando podem funcionar como espelho ou como uma espécie de manequim de loja que anuncia a próxima tendência, o novo procedimento estético, a próxima imagem a desejar.

A direção de Nieto Corassari tem uma bela virtude: alinhava, com sensibilidade, as cenas produzidas por dez artistas-criadoras/es em um panorama belo e melancólico da contemporaneidade. Há tensão e há caos, porque são corpos humanos em cena. Corpos de artistas que insistem em apurar a própria sensibilidade e, generosamente, entregá-la diante de sua plateia — seus pares, seus confidentes.É essa insistência que produz uma fissura na lógica que a obra denuncia: oferecem presença no lugar de dispersão; insistem na experiência compartilhada — no teatro e na vida — contra o isolamento.Dos gestos mais bonitos de Frágeis Sussurros está não afirmar que basta estar frente ao Outro para que tudo se resolva. O paraíso está ameaçado, rarefeito. Mas alguma coisa ainda pode ser construída quando um corpo se demora e deseja outro corpo, quando alguém escuta, quando cuida, quando artistas fazem da própria vulnerabilidade uma forma de criação e de encontro.

Os sussurros são frágeis, mas precisos; o paraíso é precário, mas existe!

Que bom trabalho da Guilda Cacilda!

Fernando Leão, 23 de agosto de 2026

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